Ácido ascórbico (vitamina C) – uma pequena molécula capaz de salvar vidas

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Imaginem uma terrível doença, cujos sintomas são exaustão, fraqueza, inchaço nos membros, diarreia e dores musculares. Além de todos esses desconfortos, a pessoa doente perde completamente sua autoestima quando vê seus dentes caindo, sua gengiva amolecendo, e percebe um hálito pútrido saindo de sua boca. Nos estágio mais avançados seu fígado e seu pulmão ficam comprometidos. Depois de todos esses estragos físicos, a mente da pessoa também começa a ser destruída ao entrar um quadro de depressão (na verdade com tudo isso é fácil entender o porquê da depressão). Ironicamente essa terrível doença tem como remédio em seus estados iniciais pequenas doses diárias de suco de laranja. Na verdade o suco de laranja não só servia como remédio, mas para a prevenção contra essa doença. Que doença é essa? Ela é conhecida como escorbuto.

O escorbuto, não muito famoso hoje, mas muito comum no período das Grandes Navegações, matou muitos marinheiros que se aventuraram pelo Atlântico. Conta-se que cerca de 90% da tripulação do português Fernão de Magalhães morreu devido ao escorbuto. Em outros casos tripulações inteiras nunca voltaram para casa devido ao escorbuto. O interessante é que embora o escorbuto já fosse conhecido, sua incidência aumentou muito durante as Grandes Navegações, podendo ser conhecida como uma espécie de “mal de marinheiros”. Por que isso? Os antigos marinheiros, fora do período das Grandes Navegações, não sofriam de escorbuto? Na verdade, muito pouco. Isso porque os marinheiros das Grandes Navegações e os marinhos de navegações mais curtas tinham uma dieta muito diferente. Um marinheiro que ficasse alguns dias no mar teria uma dieta precária, mas logo depois voltaria à terra, e poderia de uma alimentação mais decente, que incluiria alguns vegetais frescos. Agora imaginem um marinheiro das Grandes Navegações que ficaram semanas no mar, sem nenhuma parada em portos, ou mesmo meses até alcançar o seu objetivo? A dieta era muito precária. Essas viagens envolviam muitas pessoas, e a necessidade de comida era enorme. Além da “ração diária” ser reduzida, para que todos pudessem comer, ela logo estragava. Em pouco tempo o pão criava bolor, a manteiga ficava rançosa, os vegetais criavam broca, a cerveja azedava. O que durava mais era a carne salgada, e uma bolacha muito comum, feita de farinha, sal, e água, mas que era tão dura quanto pedra. Essa bolacha era tão ruim que nem os fungos a “comiam” – ela não estragava. Agora imaginem como um marinheiro sem dente e com a gengiva mole comeria uma coisa dessas? A vida era muito difícil (some a isso um ambiente quente, úmido e puco ventilado como eram os navios) . E foi a falta de laranja, limão, folhas verdes e frescas, que não era possível ter acesso quando se estava no mar, o principal responsável  pelo escorbuto. Mas o que tem nesse tipo de alimento que os fazem tão necessários.

vitaminaC Os vegetais frescos, em especial os cítricos, possuem uma molécula pequena mas de fundamental importância para a vida, o ácido ascórbico, cuja a estrutura pode ser vista ao lado. Essa pequena molécula é mais conhecida como vitamina C, e o caro leitor com certeza conhece e já ouviu falar de sua importância, mas talvez não tivesse noção do que a falta dessa vitamina pode acarretar ao corpo. Diferentemente de outras vitaminas, a vitamina C é solúvel em água, em especial por ser uma molécula relativamente pequena e principalmente por conter vários grupos hidroxilas (OH) que interagem muito bem com a água. A relação entre frutas cítricas e a prevenção do escorbuto foi descoberta já no século XVIII, mas a molécula responsável por esse milagre, o ácido ascórbico, só foi identificada na década de 30 do século XX. A descoberta do ácido ascórbico que envolveu sua extração a partir de vegetais, sua purificação, e resolução estrutural (ou seja, a descoberta de como é sua estrutura molecular), rederam em 1937 o prêmio Nobel de química ao bioquímico Albert Szent-Györgyi, e o prêmio Nobel de medicina ao professor Norman Haworth. Além da prevenção ao escorbuto, a ingestão diária de poucos miligramas  de vitamina C, que pode ser obtido em uma laranja, já ajuda na produção de colágeno (proteína com função estrutural para o nosso corpo), no reforço do sistema imunológico, no auxilio à cicatrização, no combate a radicais livres (para entender a função dos antioxidantes veja o artigo “Radicais livres vs. antioxidantes, quem vai sair ganhando?“), dentre outros benefícios. No entanto, mesmo sendo estudado a muito tempo, ainda não conhecemos inteiramente os mecanismos de reação do ácido ascórbico no nosso corpo, só sabemos que ele funciona muito bem.

Uma coisa interessante é que entre os mamíferos apenas o homem, os macacos em geral, os ratos-de-cobaia, e o morcegos-das-frutas precisam procurar uma fonte externa de vitamina C, pois não o produzem no corpo (é por isso que os morcegos-das-frutas comem frutas). Outros animais como o cachorro, e o gato, não precisam chupar laranja, nem tomar suco de limão, pois o corpo deles produz naturalmente esse ácido milagroso. No caso deles algumas enzimas conseguem obter o a vitamina C através da glicose, como mostra a sequência de reações abaixo (vamos a química).

vitaminaC_formação

Notem que as primeiras transformações são relativamente simples. Na primeira etapa o grupo álcool da glicose, em azul, é oxidado a  um grupo carboxila (COOH), e com isso é formado o ácido glucurônico; na segunda etapa o grupo aldeido do ácido glucurônico, em vermelho, é reduzido a um grupo álcool, e forma o ácido gulônico;  a terceira etapa  é a mais drástica, pois a enzima lactonase promove a formação do anel de cinco membros, mudando profundamente a estrutura da molécula. O produto desta etapa é a gulonolactona, e até esse passo o nosso organismo consegue chegar. O problema é que nós (e os demais mamíferos citados) não temos a enzima capaz de converter a gulonolactona no ácido ascórbico. Reparem que a transformação na última etapa é simples, é somente formar uma dupla ligação entre os carbonos ligados ao grupo hidroxila, mas sem essa enzima nós não conseguimos fazer isso, e embora a gulonolactona se pareça com o ácido ascórbico, ela apenas parece, mas não desenpenha as funções dele (mais um exemplo de como pequenas diferenças químicas geram grandes consequências).

Na década de 70 ocorreu uma coisa interessante envolvendo a vitamina C. O grande Linus Pauling, cujo diagrama de energia a maioria dos alunos de química básica conhece, começou a publicar uma série de artigos falando da importância da vitamina C, para a prevenção de resfriados, gripes, e até câncer. Pauling foi um dos poucos homens a ganhar dois prêmios Nobel, além de ser um dos pais do conceito de ligação química, portanto foi um patrocinador muito importante da vitamina C. Mas a comunidade médica não viu com bons olhos essas campanha.

Outro fator importante associado a vitamina C é que ela auxilia a absorção de ferro pelo organismo. Todos precisamos ter uma certa dose de íons ferro na nossa dieta. E esses íons tem de ser absorvidos pelo corpo para que a dieta seja eficiente. E quando falamos de alimentos contendo ferro o que vem a mente? Feijão (ao menos quando eu não queria comer feijão minha mãe sempre gritava – “vai comer feijão sim, porque tem ferro!”). E quando pensamos em um prato rico em feijão, no que pensamos? Numa boa feijoada! E na feijoada, além do feijão, pé de porco, orelha de porco, toucinho, carne seca, linguiça … e além de tanta (deliciosa) fonte de calorias, tem o que mais? Uns gomos de laranja, não é? Então … não apenas pelo paladar, parece que a sabedoria popular queria dizer – “coma feijão porque é rico em ferro, mas para você se beneficiar ao máximo, coma uma laranjinha, cujo ácido ascórbico vai ajudar a absorver mais o ferro”. Legal não é?

Para finalizar esse post queria repassar um tragicômico incidente histórico envolvendo a vitamina C, e a cura do escorbuto, lá no século XVIII. O cirurgião escocês James Lind, certa vez fez uma observação empírica bem interessante. Ele recrutou doze marinheiros doentes de escorbuto e os separou em seis duplas. Todos tinham a mesma dieta básica, e bem rica, mas a cada dupla passou um ingrediente diferente. A uma delas ele deu um litro de cidra, a outra doses de vinagre, dois outros tiveram de tomar ácido sulfúrico, a outros dois foi dada uma mistura de alho, mostarda, resina de mirra, cremor de tártaro, água, cevada e noz-moscada (veja o artigo “Condimentos, Geografia Mundial e Bolsa de Valores – o que um tem a ver com o outro?” para ver alguns efeitos da noz-moscada). À última dupla, mais felizarda, foi dada duas laranjas e um limão por dia. Bom … adivinhem quem conseguiu ficar curado do escorbuto? Coitados do que tiveram de tomar ácido sulfúrico e aquela mistura doida.

Espero que tenha conseguido passar a mensagem de quão importante é a pequena molécula do ácido ascórbico.  Tenham em mente que é um privilégio termos acesso a frutas cítricas frescas que são fontes dessa molécula milagrosa, e que mesmo não gostando de laranja, ou de limão, pode-se comprar vitamina C nas farmácias, a um preço a acessível e com grandes benefícios (só não é melhor do que a ingestão natural através das frutas). Na verdade, recentemente escrevi um artigo falando a respeito de ácidos, muito mais como vilões, o ácido ascórbico com certeza pode ser classificado como um ácido “mocinho”.

E ai, gostaram do artigo? Esse também foi extraído do livro Os botões de Napoleão: As 17 moléculas que mudaram o mundo, e com certeza o ácido ascórbico merece destaque entre ela. Caso alguém deseje obter o e-book pode clicar aqui. Se gostaram do artigo, por favor, compartilhem, e deixem seu comentário. Até a próxima.

  • http://www.artsicle.com/Marcos-Andre-Cavalcante-Almeida Marcos André

    Toda reação química dá cadeia.

  • Luiz Carlos Do Nascimento

    Muito esclarecedora a matéria….