Condimentos, Geografia Mundial e Bolsa de Valores – O que um tem a ver com o outro?

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Quem não gosta de uma comida bem temperada? E comida temperada tem que ter ao menos um pouco de pimenta! Aqui no Brasil a variedade de pimenta é bem ampla. Tem pimenta verde, vermelha, amarela, alaranjada; pimenta longa, final, gordinha, curta, pequena, grande … Tem gente que prefere pimentas mais leves como a pimenta-do-reino, pimenta biquinho, outros querem algo mais “quente”como a pimenta calabresa, ou a pimenta malagueta. Seja como for, a pimenta que hoje pode estar presente em nossos pratos a qualquer momento, um dia já fez pessoas atravessarem o mundo.

O período histórico conhecido como Grandes Navegações (a partir do século XV), que tiveram Portugal e Espanha como pioneiros, foi motivado pela pimenta, em especial pela pimenta-do-reino. Sendo mais específico as Grandes Navegações foram impulsionadas pela busca de rotas alternativas de comércio, com destaque para as especiarias, com a Índia. No século XV a principal fonte de especiarias era o oriente, e até as especiarias chegarem na Península Ibérica passavam por vários intermediários. Quem mantinha o monopólio comercial no mar Mediterrâneo era Veneza. Quando as especiarias, que hoje podemos considerá-las basicamente como condimentos, chegavam em Portugal e na Espanha, o preço era exorbitante. Só que tinha acesso ao paladar desses condimentos eram os nobres, e nobres bem de vida, não era qualquer um com título de nobre que tinha o direito a alguns grãos de pimenta-do-reino! Por que esses condimentos eram tão valiosos? Nesse caso valia a velha Lei da Oferta e Procura. Nessa época não existia refrigeração, e para que os alimentos ficassem conservados por mais tempo precisavam desses condimentos. Além disso, eles ajudavam a fazer com que a comida, que talvez já não estivesse tão boa, fosse ao menos “comível”. As pessoas realmente precisavam dos condimentos, precisavam da pimenta-do-reino, do cravo-da-índia, da noz-moscada, da canela, para ter um paladar um pouco melhor … por isso eram tão valiosas, e consequentemente tão caras. O clima europeu não era o mais adequado para cultivar esses vegetais e o jeito era importar. Portugal e Espanha, com o objetivo de cortar intermediários, e com o filosofia do “faça vocês mesmo”, decidira se lançar ao mar em busca de outras rotas, e com isso entrar nesse comércio tão lucrativo. Como consequência dassa busca, a geografia mundial nunca mais foi a mesma. Portugal e Espanha chegaram ao que hoje chamamos de América, e “descobriram” o que hoje chamamos de Brasil. Além disto, a costa africana foi colonizada, e vários navegadores encontraram águas nunca antes exploradas. Até o formato do nosso planeta foi confirmado em função desse período. Tudo isso por culpa do comércio da pimenta-do-reino, e dos outros condimentos. A pimenta era importante devido ao seu ardor, ao seu sabor pungente, mas o que é responsável por esse gosto? É ai que entra a química. Neste artigo vou apresentar a vocês as moléculas responsáveis por esse gosto tão peculiar, e que, de certa forma, conduziram a mudança da geografia mundial a partir do século XV.

piperinaA molécula responsável por toda a fama da pimenta-do-reino é a piperina. Essa molécula, que é relativamente simples, é a responsável pelo gost0 característico da pimenta-do-reino. Uma vez em contato com a as papilas gustativas em nossas línguas, a piperina rapidamente interage com as as terminações nervosas, mandando ao nosso cérebro a sensação de ardor. Essa interação estimula a produção de saliva, o que facilita a mastigação e a digestão dos alimentos. Um fator interessante é que a piperina não estimula apenas as papilas gustativa, que estão presentes apenas na língua, ela estimula várias partes do nosso corpo. Isso ocorre porque a piperina interage com as proteínas presentes nas terminações nervosas de nosso corpo. Quando as moléculas de piperina interagem com essas proteínas, a estrutura da proteína se modifica, e manda um sinal para o cérebro indicado que a aquela região do contato está dolorida. Dolorida? Sim, sentimos “dor” quando comemos pimenta. A prova disso é se deixar cai um pouco de pimenta nos olhos. Com certeza sentiremos muita dor, e nos olhos não existe nenhuma papila gustativa! Isso é uma consequência da interação da piperina com as terminações nervosas dos olhos. Mas se não formos desastrados e apenas ingerirmos pequenas quantidades de piperina (pimenta-do-reino), essa “dor” não é sentida apenas na boca, mas ao longo de várias partes do trato digestivo. Ao que parece, isso estimula a contração muscular, e pode facilitar a digestão. Mas a piperina não é a única molécula responsável pelo ardor. Não sei se já notaram mas as pimentas em conserva são muito diferentes da pimenta-do-reino. A pimenta-do-reino são pequenas bolinhas, que quando secas ficam escuras, enquanto as demais pimentas se parecem com pequenas frutinhas com forma e coloração bem diversificada. A diferença entre elas capsaicinanão se limita apenas à forma, mas na molécula responsável que ardor. No caso das outras pimentas a molécula responsável  é a capsaicina, mostrada à esquerda.

Ao comparar as duas moléculas vemos que não são idênticas, mas são ao menos similares. Ambas possuem um grupo amida (destacado em vermelho), um anel aromático ligado a dois átomos de oxigênio nas mesmas posições (destacados em azul). Provavelmente essas duas moléculas interagem de maneira similar com as proteínas presentes nas terminações nervosas, e com isso provocam a mesma sensação de dor. Mas além de estimular o organismo a fazer uma digestão mais efetiva, a ingestão da piperina e da capsaicina provocam uma outra sensação. Como elas estimulam uma sensação de dor, essa dor estimula nosso cérebro a liberar endorfinas. Endorfinas são hormônios maravilhosos que dão ao nosso corpo a sensação de alívio, e bem estar. Neste caso, as endorfinas são liberadas com a função anestésica (afinal, para nosso cérebro estamos sentindo “dor”). Por isso muitas pessoas gostam tanto de comida apimentada. Não é apenas pelo ardor, mas pelas sensação de prazer provocada depois da refeição.

Já que estamos falando de pimenta, e portanto de condimentos, vamos falar um pouco mais sobre outras moléculas que provocaram as Grandes Navegações. Não era apenas a pimenta-do-reino que era trazida da Índia. Além dela, o cravo-da-índia e a noz-moscada também recebem destaque. Se nós olharmos os dois condimentos vemos que são bem diferentes. Mas sabiam que as moléculas responsáveis por seus aromas característicos são bem parecidas? A molécula responsável pelo aroma do cravo-da-índia é o eugenol, enquanto na noz-moscada é o isoeugenol. As duas estrutural são mostradas abaixo.

eugenol

Notem, a única diferença é a posição da ligação dupla (destacada em vermelho). Enquanto que no eugenol (presente no cravo-da-índia), a ligação dupla é terminal, no isoeugenol (presente na noz-moscada) ela é formada entre carbonos mais internos. Essa pequena diferença causa efeitos bem diferentes no que diz respeito ao aroma. Mas essas especiarias serviam mais do que condimentos. O cravo-da-índia era usado, na China, como refrescante bucal (“o tatatatatataravô do Listerine®“), e como anestésico odontológico, além de antisséptico. A noz-moscada por sua vez, também era usada como remédio, mas um remédio muito mais valioso. Era usada para a prevenção da terrível Peste Negra, que chegou a matar 1/3 da população européia. Quem podia comprar a noz-moscada por uma pequena fortuna, a usava como uma amuleto no pescoço, para evitar a contaminação com a doença. Na verdade, provavelmente as pessoas com dinheiro para comprar uma pequena noz-moscada vivia em um ambiente mais limpo, e portanto estava menos propícia a ser contaminada com a Peste Negra, que era transmitida pelas pulgas de ratos.

A noz-moscada tem outras propriedades interessantes. Além do isoeugenol que lhe confere o aroma característicos, ela ainda possui duas moléculas aromáticas bem interessantes, a miriticina e a elemicina, que são mostradas abaixo.

Mirist_elim

Essas duas moléculas, além de propriedades inseticidas, e aromáticas, também possuem propriedades alucinógenas. Alguns dos leitores já comeu uma noz-moscada inteira? Creio que não, e por favor não o façam. Relatos indicam que a ingestão de uma única noz-moscada provoca náusea, suor gelado, e alucinações por dias! Provavelmente esses efeitos alucinógenos se devem às moléculas de miristicina e elemicina. Na verdade, não exatamente a essas moléculas, mas a alguma transformação delas no nosso organismo. Essa hipótese possui um fundamento bem interessante. A molécula de miristicina é muito parecida com outra molécula, o safrol. Compare a semelhança na figura abaixo.

safrol

ecstasySe as observarmos bem vemos que as duas são quase idênticas, com a diferença que o safrol não possui o grupo metóxi (OCH3) ligado ao anel aromático. O safrol, em si, não é alucinógeno, mas serve como matéria prima na síntese de uma molécula muito popular, o 3,4-metilenedioxi-N-metilanfetamina, mostrada ao lado. Conhecem né? Por esse nome, eu acho que não, mas quem já viu a gloriosa série Breaking Bad, sabe que não devemos esperar boa coisa de uma molécula que termina com o nome “anfetamina”. Esse derivado do safrol de nome 3,4-metilenedioxi-N-metilanfetamina é vendido no mercado paralelo com o nome ecstasy. O ecstasy é um alucinógeno poderosíssimo, que embora provoque sensação de bem-estar, e modifique as percepções sensoriais do usuário, levando-o a uma verdadeira “viagem”, provoca efeitos colaterais devastadores como desidratação intensa, taquicardia, exaustão, convulsão e morte. Por isso, acha-se que algum derivado da miristicina é produzido no corpo, quando consumida em excesso, com efeitos alucinógenos (da mesmas forma que o ecstasy é um derivado do safrol).

Viram como algumas moléculas foram capazes de mover o mundo, e e chegaram ao ponto de mudar a geografia mundial? Nos dias de hoje não imaginamos que uma gota dos molhos de pimenta vendidos nos mercados já teve tanto poder. Mas falta uma curiosidade que eu ainda não falei. Viram no título do artigo que eu relaciono condimentos, geografia mundial e a bolsa de valores? Que a busca pelo comércio de especiarias mudou a cara do mundo, todos sabem, e eu já falei no artigo. Mas o que a Bolsa de Valores tem a ver com isso? Bom … logo após Portugal e Espanha investirem nas Grandes Navegações, as outras potencias europeias não ficaram para trás. A Inglaterra, e a Holanda, também buscaram vorazmente esse comércio, e ambas potências criaram uma empresa para administrar esse comércio – A Companhia das Índias Orientais. Existia uma inglesa, e outra holandesa. No caso da Inglaterra, para financiar a perigosa viagem a Índia em busca de especiarias, e não correr o risco de arcar com todo o prejuízo, a Companhia das Índias Orientais, resolveu buscar investidores que poderiam comprar “cotas” da viagem. Com isso cada cotista teria sua parte de especiarias se tudo desse certo, mas arcaria com seu próprio prejuízo se algo desse errado. Com o tempo foi possível comprar cotas da própria Companhia das Índias Orientais. Literalmente isso significava comprar (e vender) ações da Companhia das Índias Orientais, gerando então o embrião do que hoje conhecemos com compra e venda de ações na Bolsa de Valores. Tudo isso impulsionado graças as fabulosas moléculas presentes nas especiarias.

E ai? Gostaram do artigo? Se gostaram por favor compartilhem. Esse artigo, em sua essência, foi baseado no Primeiro Capítulo do livro Os Botões de Napoleão: As 17 moléculas que mudaram a história, de Penny le Couter e Jay Burreson. É um livro relativamente barato, custa um pouco mais de R$ 30,00 o e-book, e é uma excelente referência para os amantes da química. Escreverei mais artigos baseado nesse livro, mas quem quiser ter o seu pode ser obtido na Amazon, é só clicar aqui.