Hormônios sexuais – pequenas diferenças, grandes consequências

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Na infância as diferenças externas entre meninos e meninas são muito pequenas. Na verdade praticamente limita-se a diferença das gônodas (órgãos sexuais). Por causa disso, não raro, pode-se confundir um menino com uma menina, e vice-versa, se os dois tiverem cabelos curtos, e estiverem usando roupas semelhantes.

No entanto, quando chega a adolescência isto muda completamente. Nesta fase, meninos e meninas são muito diferentes, tanto física quanto psicologicamente. As meninas começam a desenvolver os seios, o corpo começa a ser modelado com curvas especialmente na cintura, a voz fica mais aguda, e seu corpo começa a se preparar para um dia gestar uma criança. Do ponto de vista psicológico, tornam-se mais sensíveis, mais meigas, e vaidosas (bom … essa frase, hoje em dia, nem sempre é uma verdade absoluta, mas em muitos casos isso ainda acontece, rsrsrsrrsrs).

Os meninos por outro lado são bem diferentes … seus músculos se desenvolvem mais, começam a crescer os primeiros fiapos de barba (os quais, na maioria dos casos da nossa sociedade ocidental, serão aparados pelo resto da vida …), a voz engrossa, e ficam mais agressivos, fazendo qualquer coisa motivo para brigar.

Essa é uma fase engraçada, porque o adolescente se desenvolve muito rápido, chegando a crescer vários centímetros em alguns meses. Já perdi a conta do número de vezes em que alguns alunos no começo do ano são bem baixos, mas no final do mesmo ano tornam-se homens bem corpulentos. É também nessa fase que nascem as terríveis espinhas, que para alguns serão uma tormenta por muito anos.

Mas por que meninos e meninas são tão diferentes à partir da adolescência?

Se você prestou atenção nas aulas de ciência do final do ensino fundamental, ou na aulas de biologia, ou ainda se leu com atenção no título do post, provavelmente respondeu que a culpa disto são os hormônios. Em especial, os hormônios sexuais. E é verdade! Graças a essas substâncias químicas que homens e mulheres são tão diferentes do ponto de vista físico, sexual e psicológico.

Lembram-se do nome desses hormônios? As mulheres possuem os hormônios estrogênios e progesterona, e os homens a testosterona (ao menos foi isso que eu memorizei na sétima série … ).

Na verdade, existem três tipos de hormônios sexuais, os femininos, que são os estrógenos (ou estrogênios), os masculinos, que são as progestinas, dentre as quais está a progesterona, e os hormônios femininos com função relacionadas a gravidez, que são as progestinas, que inclui a progesterona. Vale ressaltar que tanto os homens possuem um pouco de estrógenos, e as mulheres um pouco de progestinas, porém uma quantidade bem pequena mesmo.

Até aqui, muitas pessoas conhecem, mas isto é um post de química, e você conhece a estrutura química desses hormônios? Elas podem ser observadas na figura abaixo.

Principais hormônios esteróides sexuais
Principais hormônios esteróides sexuais

Se vocês leram os posts da vitamina D, e dos cristais líquidos, onde mostro a estrutura do colesterol, vocês devem ter percebido uma certa similaridade entre essas moléculas. Isto porque elas pertencem a um grupo de moléculas naturais chamadas de esteróides. Os esteróides apresentam como estrutura básica quatro anéis condensados, sendo três de seis membros, e um de cinco membros, normalmente rotulados como A, B, C e D, como pode ser observado na figura ao lado.

Estrutura básica dos esteróides
Estrutura básica dos esteróides

Na primeira figura apresentei o principal hormônio feminino que é o estradiol. O estradiol foi descoberto em 1929 pelo alemão Adolf Butenandt, e pelo estadunidense Edward Doisy. Um fato curioso, foi que para Dosy isolar míseros 4 mg de estradiol, ele precisou de nada menos que uma bagatela de 4 toneladas de ovários de porca!!!! Mostrando que a quantidade desses hormônios no corpo é bem pequena (mas suficiente). No animais, o estradiol é o responsável por fazer as fêmeas entrarem no cio, período que o corpo da fêmea está preparado para acasalar com o macho. Quem tem animal doméstico em casa, como cães e gatos,  conhece bem esse período! A testosterona foi descoberta alguns anos depois, em 1935, pelo holandês Ernst Laqueur.

Tanto a testosterona, quanto o estradiol, são metabolizados no corpo e excretados pelo na forma de dois outros hormônios – a estrona, e a androsterona. A diferença estrutural entre o estradiol/estrona está no substituinte no anel D. Enquanto o estradiol possui um grupo hidroxila, -OH, a sua forma metabolizada (estrona), possui um grupo carbonila, =O, na mesma posição. A androsterona e a testosterona possuem essa mesma diferença, uma outra bem semelhante no anel A.

A progesterona também apresenta uma estrutura bem parecida aos outros hormônios sexuais. Como já dito, o principal papel da progesterona nas mulheres está relacionado a permissão, e manutenção da gravidez. É a progesterona que permite o recobrimento uterino para receber o óvulo fecundado, e é liberada continuamente durante toda a gravidez. O interessante é que é essa liberação contínua de progesterona durante a gravidez que impede que a mulher ovule nesse período, e consequentemente impossibilita que a mulher “engravide grávida”. Esta constatação permite o seguinte raciocínio: se a liberação contínua de progesterona no organismo feminino impede a ovulação, se a mulher tomar doses contínuas de progesterona, ela não irá ovular. E está ai a ideia do anticoncepcional! Na verdade os anticoncepcionais são fármacos formados por progesterona, e estradiol sintéticos. Na verdade são moléculas de esteróides bem parecidos estruturalmente aos naturais, com pequenas diferenças principalmente no anel D. Quando a mulher administra oralmente estes fármacos o ciclo da ovulação é alterado.

Mas o ponto mais importante deste post está na comparação estrutural do estradiol com a progesterona. Por favor, olhem outra vez a primeira figura. Repararam bem a diferença entre as duas moléculas? É simplesmente algumas alterações no anel A. Enquanto o estradiol possui uma hidroxila, -OH, e o anel A é um anel aromático (o que faz o estradiol ser um fenol, destacado na cor vermelha), a testosterona possui um grupo cetona, =O, e outras pequenas diferenças no anel A (destacado com a cor azul). Aparentemente essas são diferenças muito pequenas, mas no nosso organismo abre um enorme fosso entre as diferenças secundárias entre os homens e a mulheres. É fantástico pensar que o tom da voz, a quantidade de massa muscular, a altura, o pelo no corpo, a força, e boa parte das características psicológicas são orientadas por duas moléculas tão parecidas, com diferenças aparentemente tão pequenas. O mesmo pode-se falar entre a testosterona e a progesterona. A única diferença está em alguns átomos a mais que a progesterona possui ligado ao anel D, e ambos os hormônios possuem características completamente deferentes.

Outra prova do papel determinante desses hormônios, é quando os homens e as mulheres passam a administrar os hormônios opostos sintéticos. Se as mulheres passam a tomar testosterona sintética, ou anabolizantes baseados na testosterona, ela simplesmente passa adquirir as características secundárias masculinas, com o engrossamento da voz, e o aumento da massa muscular. O mesmo se dá caso o homem comece a administrar estradiol sintético, ou esteróides similares.

Bom … este post mostrou um exemplo de como diferenças químicas bem pequenas podem levar a consequências gigantescas nos organismos vivos. Essas pequenas diferenças podem fazer uma molécula ser um eficiente fármaco ou um veneno letal. Em breve publicarei mais posts mostrando mais exemplos desse tipo.

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Fonte:

T. W. G. Solomon, et al, Química Orgânica, Volume 2, 10° Edição, Capítulo 23. LTC.