Caindo nos braços de Morfeu, ou melhor, da morfina

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Vocês já ouviram falar em morfina? É um potente analgésico, que provoca dependência física e psíquica (é um daqueles temíveis remédios “tarja preta”, sabem?). Por causar dependência, só é receitado em situações extremas, como no caso de aliviar as terríveis dores de pacientes com câncer (tive contato com esse fármaco quando meu pai teve de usá-lo …).

A morfina, como substância pura, é conhecida a uns dois séculos, mas como mistura já é utilizada a muito mais do que isso. Ela é o principal alcaloide do ópio. Calma que eu explico (os dois termos). Quando falamos que a morfina é um alcaloide queremos dizer que ela tem as propriedades de um álcali (ou de uma base). Como podem ver na estrutura mais abaixo, a morfina possui um átomo de nitrogênio terciário, que a caracteriza como uma amina. Este átomo, possui um par de elétrons não ligado (não representado), que permite que a morfina atue como uma base de Lewis, e por isso tenha suas propriedades alcalinas. No geral, qualquer aminas, obtida por fontes naturais, por apresentarem propriedades alcalinas, são genericamente chamadas de alcaloides.

O ópio, por sua vez, é uma droga extraída do bulbo da papoula, utilizada a muito tempo, principalmente em países orientais. Essa droga é capaz de provocar facilmente a dependência química de seus usuários, no qual a morfina é uma das principais responsáveis por isso (por isso a morfina também é classificada como um opiato, ou seja, um dos constituintes do ópio). Alguns filmes e livros descrevem lugares onde um amontoado de pessoas se reúne para fumar o ópio. Todas essas pessoas costumam estar mal vestidas, sujas, e em um estado de torpor e alucinação profunda (uma situação bem semelhante ao que existe hoje no Brasil nas cracolândias). Quando uma pessoa torna-se dependente do ópio vira quase um zumbi. O Império Britânico, em  sua gananciosa expansão, usou essa covarde estratégia para derrotar os chineses – contrabandeava ópio para a China e assim “escravizava” quimicamente o povo. Isso gerou a chamada Guerra do Ópio, que teve como resultado, além das vítimas, a “doação” de Hong Kong para a Inglaterra, (que foi “devolvida” para a China só em 1997).

morfeu de modeladorFoi por provocar sonolência, e o estado de semi-consciência, onde alucinações se misturam com a realidade, que a morfina, seja administrada como remédio, seja inalada na forma de ópio, recebeu seu nome – uma homenagem ao deus Morfeu. Morfeu, o deus grego dos Sonhos, era um dos filhos de Hipnos, o deus grego do Sono (e portanto um dos Oneiros, ao lado de Ícelo e Fântaso). Segundo a mitologia, Morfeu, pode entrar diretamente no sonho das pessoas podendo assumir qualquer forma, e assim poder influenciá-las. É daí que surge a expressão “caindo nos braços de Morfeu”, que na verdade, nada mais é que uma expressão para indicar que a pessoa irá dormir. Muitos personagens dos quadrinho e dos filmes receberam o nome “Morfeu” em homenagem a esse deus, por de alguma forma, ter suas atividades relacionadas ao sonho/sono. O mais famoso, sem dúvidas, é o personagem de Matrix, Morpheus, interpretado por Laurence Fishburne. Nesse caso, Morpheus recebe esse nome por, primeiro, agir como uma alucinação para Neo. Enquanto Neo ainda não tem consciência que está preso na Matrix, a figura de Morpheus é um misto realidade (ele está vendo Morpheus) e ao mesmo tempo uma fantasia (como ele é capaz de fazer as coisas que faz?). Além disto, o próprio Morpheus é um sonhador, com uma inabalável fé na profecia do escolhido. Outro personagem que encarna o título de Morfeu, é o espectro de Hades da série Saint Seiya – Lost Canvas. Na segunda temporada tem um espectro, na verdade, um deus, filho de Hypnos, que se chama Morfeu de Modelador (figura à esquerda), e que possui a habilidade de entrar nos sonhos dos cavaleiros. O interessante é que ele faz isso com sua técnica chamada “Papoulas do Mundo dos Sonhos”. Tudo a ver, não é?  Mas … vamos voltar para a morfina?

A fórmula estrutural da morfina só foi elucidada em 1925, mais de um século após sua descoberta, e é mostrada na figura abaixo. Notem que eu destaquei alguns átomos em vermelho, que são precisamente a sequência de uma anel aromático, um carbono quaternário, dois grupos metileno (CH2) e um átomo de nitrogênio terciário. Essa sequência é chamada de regra da morfina, que é muito comum em outros alucinógenos com efeito analgésico.

morfina

O poder da morfina como medicamento logo foi descoberto e explorado. Mas tinha um problema … como já dito, causa forte dependência, e isso não é nada bom, para nenhum medicamento. Foi ai que os químicos dos Laboratórios Bayer, decidiram fazer algumas pequenas modificações estruturas na morfina, para que ela continuasse com o seu poder analgésico, porém sem “viciar” tanto. Já se sabia que pequenas modificações estruturais na morfina poderiam reduzir o seu poder, em termos de provocar dependência. Por exemplo, outro alcaloide opiato é a codeína, que apresenta estrutura muito parecida com a morfina, mas não “vicia” tanto. Infelizmente a codeína também não é tão potente quanto a morfina para aliviar as dores. Sabendo disso, a Bayer tentou acetilar a morfina, ou seja, substituir os grupos hidroxilas por grupos acetil. Isso funcionou muito bem ao transformar o ácido salicílico em ácido acetil-salicílico (a velha e boa aspirina). Então por que não iria funcionar com a morfina? Através de uma reação de esterificação com ácido acético, a morfina foi então convertida na diacetilmorfina, cuja a estrutura, junto com a da codeína está mostrada abaixo (e como esse é um artigo de química, aproveito para mostrar o mecanismo de uma reação de esterificação em meio ácido, neste caso específico, uma reação de acetilação).

mecanismo+codeina

Como mostrado acima, o mecanismo na reação de acetilação, nada mais é que uma adição nucleofílica ao grupo acila. Isto significa que os pares de elétrons do oxigênio do grupo fenol (-OH) “ataca” o carbono da carboxila do ácido. Esse carbono específico está deficiente de elétrons por estar ligados a átomos de oxigênio, que são bem mais eletronegativos. Mas, para que a reação ocorra, é necessário a presença de íons H+, que, neste caso, atuam como catalisadores. Notem que eles entram na primeira etapa da reação (que eu representei como simplesmente H+), e são regenerados no final da reação (que eu representei como H3O+). Em termos práticos, essa reação, consiste em simplesmente adicionar o grupo CH3CO- (neste caso dois), proveniente do ácido acético, na molécula de morfina.

Quando os Laboratórios Bayer testaram a diacetilmorfina, perceberam que a troca do grupo -OH, pelo grupo CH3CO-, aumentou a velocidade da absorção da molécula pelo sangue, e acelerou sua chegada ao cérebro. No cérebro, a diacetilmorfina provoca os mesmos efeitos característicos da morfina, mas como sua absorção é mais rápida, causa uma euforia rápida e intensa (e por que não, “agradável” para alguns?). Além disso, verificou-se que, a diacetilmorfina, inicialmente, não provocava os efeitos colaterais da morfina, dentre eles as terríveis náuseas. Com isso a Bayer se viu diante de mais “uma mina de ouro”. A diacetilmorfina foi usada como calmante, analgésico para dor de cabeça, contra asma, enfisema, tuberculose, em suma, um remédio de mil e uma utilidades. Esse remédio, potente, e sem aparentes efeitos colaterais, que servia para tudo, merecia realmente o adjetivo de heroico. Por isso, a acetilmorfina, ficou conhecida como Heroína. Sim, vocês não leram errado. Esse miraculoso fármaco, derivado da morfina, sintetizado originalmente pelos Laboratórios Bayer, e comercializado livremente como um verdadeiro “pau-para-toda-obra” era a heroína, a mesma droga que aparece no Jornal Nacional. Assim que seus efeitos colaterais ficaram mais evidentes, a Bayer deixou de comercializar o produto. Dessa vez, “o que foi Bayer, não foi bom”.

No que diz respeito a ação biológica da morfina, parece que o mecanismo mais aceito, é que ela é capaz de ocupar, e bloquear, um dos receptores de dor no cérebro. E para fazer isso, ela tem que ter uma estrutura bem apropriada. A morfina, age de maneira similar as endorfinas, os excelentes hormônios que nos propicia a sensação de prazer e relaxamento. E isso se deve exatamente a “regra da morfina”, que também está destacada nas moléculas de codeína e de acetilmorfina/heroína (na figura acima). Esse grupo, ao que parece, é que permite a boa interação da molécula com os canais cerebrais, e fornece os “poderes mágicos” à morfina, e a outros alcaloides. Um outro exemplo de molécula, que segue a regra da morfina, é a meperidina, que é mostrada abaixo (a regra da morfina nesta molécula também está destacada em vermelho).

meperidrinaA meperidina não se parece muito com a morfina, e seus derivados diretos, mas por possuir a regra da morfina, funciona como um bom analgésico, e provoca menos náuseas. Mas assim como a morfina, também provoca dependência química, traço característico dos compostos que apresentam esta “regra”. A meperidina é comercializada como nome de Demerol. Não conheço esse remédio, mas uma rápida busca no Google mostra que ele é comercializado, tanto na forma de comprimidos, quanto na forma injetável.

Bom pessoal … é isso. Gostaram do artigo? É bem interessante esse caso da morfina, desde a origem de seu nome, de sua fonte natural, de seus efeitos e de seus derivados. É um excelente tópico a ser abordado nas aulas de química orgânica. Espero que todos tenham gostado, mas principalmente que o contato de cada um de meus leitores com a morfina seja apenas nas folhas de um livro, ou nas páginas digitais, e que nunca, nem os leitores, e nenhum parente, tenha a necessidade de usar esse “fabuloso” fármaco. Se gostaram do artigo, por favor, compartilhem com seus conhecidos, alunos, professores, amigos, inimigos, familiares, e a quem mais possam conhecer. Não se esqueçam de se inscreverem no meu canal do Youtube e de curtir a Fanpage.

Esse artigo foi baseado no libro os Botões de Napoleão – 17 Moléculas que Mudaram o Mundo, um leitura obrigatória para todo professor e amante de química. Para adquirir a versão e-book podem clicar aqui, recomendo pois vale muito à pena.