Vocês já ouviram falar da Púrpura de Tiro? E do Índigo? Ou do Vermelho Carmim?

Tempo de leitura: 10 minutos

(…)Recolhei dentre vós uma contribuição para Jeová. Cada um de coração disposto traga como contribuição pertencente a Jeová, a saber, ouro e prata, e cobre, e linha azul, e lã tingida de roxo, e fibras carmíneas, e linho fino (…)  e pedra de ônix e pedras de engaste para o éfode e para o peitoral. Êxodo 35:5 – 9, Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas

Como cristão sempre achei muito interessante esse texto. Ele narra o que os israelitas deveriam arrecadar como contribuição para a construção do Tabernáculo, a Tenda de Deus no deserto. Eu o achava interessante porque, no meio de produtos valiosos como ouro, prata, bronze, e pedras de ônix, estavam produtos de menor valor comercial como lã tingida de roxo, fibras carmíneas e linha azul. Por que estes três produtos, tão inferiores, estariam ao lado de uma contribuição tão valiosa para a Tenda de Deus, como o ouro e a prata? A resposta é simples, naquela época, qualquer coisa tingida de roxo, azul e carmim (vermelho) eram simplesmente muito valiosas! Não era qualquer um que tinha uma blusinha vermelha, ou uma bermuda azul piscina não!

Apenas para termos uma ideia, a cor roxa, ou púrpura, era tão rara que, em muitas nações, era exclusiva da realeza. Não apenas pelo valor associado, afinal o povo comum não teria condições de comprar uma roupa tingida por essa cor, mas também pelo ao seu significado intrínseco. Entre os romanos, por exemplo, existia a expressão “nascido para a púrpura”, que era usada para designar o grande Imperador, que usava uma toga púrpura exclusiva. Mas por que todo esse valor associado a uma simples cor?

A resposta é simples – raridade. O pigmento púrpura, na antiguidade, era extraído a partir de um muco opaco eliminado por alguns moluscos do gênero murex.  Numa rápida pesquisa no Google Imagens, podemos ver que esse molusco possui uma concha, parecida com a de um caramujo, porém toda cheia de ramificações que parecem espinhos. E era esse pobre animal que liberava a secreção opaca, que após se oxidar na presença de ar, formava um pigmento roxo (púrpura) bem intenso e brilhante. Devido a essa característica natural, enquanto a família Imperial romana era “nascida para  a púrpura”, esses pobres moluscos eram “nascido para morrer”. E isso torna-se bem evidente quando falamos em números. Era necessário cerca de nove mil molusco para produzir um grama desse valioso pigmento. Nove mil por grama! Isso é muita coisa. As cidades portuárias fenícias, Tiro e Sídon, se destacaram na produção desse pigmento. Como eram cidades litorâneas seu acesso a esses preciosos moluscos era facilitado. A produção ficou tão famosa que o pigmento roxo passou a ser conhecido como A Púrpura de Tiro. Hoje, ainda se encontra montes de conchas desses moluscos no que restou dessas cidades.

Outra cor muito rara na antiguidade era o azul. Este pigmento costumava ser extraído de uma planta chamada Indigofera tinctoria. O corante azul, obtido quando as folhas dessa planta era fermentada, é conhecido como índigo, ou índigo azul, para diferenciá-lo do índigo carmim, ou ainda, anil. O nome índigo não é derivado do nome da planta, mas exatamente o contrário. O índigo já era conhecido a muito tempo, bem antes de Lineu propor a classificação taxonômica das espécies. Provavelmente, seu nome está relacionado com o grande viajante Marco Polo, que viu esse corante azul intenso ser usado pela população do Vale do Indo, e dai que viria o nome índigo.

No Brasil o termo índigo não é tão famoso (ao menos não estre os estudantes), mesmo tendo sido o tema de uma música do Gilberto Gil, a “Índigo Blue”, conhecem? Um fragmento da letra é mostrado abaixo.

Índigo blue, índigo blue
Índigo blusão
Índigo blue, índigo blue
Índigo blusão

Sob o blusão, sob a blusa
Nas encostas lisas do monte do peito
Dedos alegres e afoitos
Se apressam em busca do pico do peito
De onde os efeitos gozosos
Das ondas de prazer se propagarão
Por toda essa terra amiga
Desde a serra da barriga
Às grutas do coração (…)

Sinceramente eu não consegui captar muito a essência dessa música, talvez por falta de sensibilidade minha. Ele faz um trocadilho com o nome índigo blue (o índigo azul) e as palavras blusa e blusão. Não sei se minha interpretação está certa, mas o índigo é um corante muito utilizado na industria têxtil até hoje para tingir as roupas de azul. O velho e bom jeans é um resultado disso. Aí, não sei se ele está associando o nome do corante com uma blusa azul, e aí, por a blusa ser uma roupa que cobre o tórax e o abdome, ele faz referência ao peito e a barriga, … sei lá.

Voltando ao post …um fato interessante associado ao índigo é a sua obtenção. Como dito, ele é extraído das folhas de uma planta, mas inicialmente ele não é azulado. A cor surge apenas após a oxidação em meio alcalino. Algumas civilizações antigas geravam o meio básico com a urina. É … urina. Alguns povos extraiam o índigo com xixi. Outros usavam cinzas para deixar o meio básico, mas este método de extração não provoca o mesmo espanto quando se fala da urina. Mas fiquem calmos, o método da urina era usado antigamente. Hoje o corante índigo é obtido de maneira sintética, graças ao método desenvolvido pelo célebre alemão Johan Friedrich Wilhelm Adolf von Baeyer (e com isso ele ganhou o Prêmio de Nobel de química de 1905).

Mas … e a química por trás disso?

A molécula responsável pela cor azul do corante índigo está mostrada abaixo (do lado esquerdo).

indigo

Percebam que a molécula de índigo, ou, agora vamos chamá-la por um nome mais químico, a indigona, é uma molécula bem rica em insaturações (ligações duplas). Os elétrons das ligações π dentro desses anéis estão deslocalizados, ou seja, estão em constante movimento entre os átomos. Nós químicos chamamos esse movimento de ressonância. Para que ocorra a ressonância a molécula de indigona tem de absorver energia. Esta energia absorvida, por sua vez, pode ser a energia luminosa, que no caso específico da indigona, enquadra-se na região do visível do espectro eletromagnético. O mecanismo é, a grosso modo, mais ou menos assim – ao incidir a luz branca sobre a substância, ela absorve uma parte bem característica dessa energia, provavelmente a parte amarela da luz branca. A parte que não é absorvida é refletida, que é justamente a cor que nós vemos. Neste caso, chamamos essa cor refletida de cor complementar (complementar a que foi absorvida). Como a indigona absorve na faixa do amarelo, a cor complementar é o azul.

A cor absorvida por uma molécula é característica de cada grupo cromóforo, ou seja, o grupo responsável pela coloração da substância. Quando adicionamos dois átomos de bromo à molécula de indigona, formamos a dibromoindigona (que é a molécula mostrada acima, à direita). Esta molécula é muito parecida com a indigona, no entanto, os elétrons não ligantes dos átomos de bromo entram no processo de ressonância, o que muda ligeiramente o grupo cromóforo. Com isso a dibromoindigona absorve em outra faixa de energia, que neste caso é na região em torno do verde. A cor complementar nesse caso é o roxo, ou melhor a púrpura! Isso mesmo, acharam que eu tinha me esquecido da Púrpura de Tiro? A molécula extraída dos moluscos é uma parente bem próxima do índigo, é a dibromoindigona. A simples adição de dois bromos (feita pela natureza) mudou completamente a cor do pigmento, e seu valor associado.  Legal, não é?

Um outro fato interessante é que nem a indigona nem a dibromoindigona são encontradas em seus respectivos organismos vivos produtores. O que é encontrado são molécula precursoras, no caso a indicã, e a bromoindicã, respecrivamente para a indigona e dibromoindigona, que são mostradas abaixo.

indica

Tanto a indicã, quanto a bromoindicã, são incolores. Isso significa que grupo cromóforo não absorve energia luminosa na faixa do visível e sim do ultravioleta, e a cor complementar também não está na região do visível, e por isso ela não é colorida. Lembra que eu falei que o muco liberado pelo molusco era opaco, e o pigmento extraído das folhas não era azulado? Então, a cor só aparece quando as moléculas de indicã e bromoindicã são convertidas, via oxidação a índigo e dibromoindigona.

Bom … já falei do azul, do roxo (púrpura), falta falar do vermelho carmim (ou escarlate). Notem que na citação bíblica, também se fala das fibras carmíneas, ou fibras avermelhadas. Assim como o azul, mas nem tanto quanto a púrpura, o carmim era um pigmento bem caro.

O pigmento carmim era extraído de pequenos insetos. Na América do Sul já era conhecido pelos astecas, e foi muito explorado pelos “conquistadores” espanhóis, inclusive gerando um grande comércio em torno desse pigmento. No continente americano, esse pigmento era extraído da cochonilha, um pequeno inseto, parente da cigarra. Conta-se que era necessário o sacrifício de setenta mil desses insetos para se obter menos de meio quilo desse pigmento. Já deu para perceber porque era tão caro. No Egito, um pigmento bem parecido era extraído de um inseto chamado quermes. Provavelmente as fibras carmíneas, citadas no Êxodo, devem se referir a fibras tingidas pelo pigmento extraído do quermes.

As moléculas responsáveis pela cor carmim são o ácido carmínico (presente na cochonilha) e ácido quermésico (extraído do quermes), e elas são mostradas abaixo.

carmim

Notem, que mais uma vez, temos moléculas ricas em insaturações. As duas moléculas são muito parecidas, com grupo cromóforos quase idênticos, e por isso apresentam corem bem parecidas (na verdade o tom de vermelho é ligeiramente diferente). Neste caso, para apresentarem a cor vermelha, essas moléculas absorvem energia luminosa na faixa do verde azulado. Assim como o azul e o roxo, o vermelho que temos hoje não é extraído desses pequenos insetos (ainda bem!).

Viram como essas moléculas foram capazes de mudar o mundo? Influenciaram o comércio, o status das pessoas, e o sacrifício de muitas pessoas e animais (pobres cochonilhas e moluscos murex). Depois que descobri isso, vi que faz todo sentido elas estarem ao lado, em termos de valor agregado, do outro, da prata, do cobre, e do ônix, quando foram solicitados como donativos para a construção do Tabernáculo.

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Ta ok? Então … até a próxima do ensinando e aprendendo.

  • Aluno(a)

    Antonio, queria dizer-te, francamente, que és um professor maravilhoso, e por realizar este trabalho, mostra como um professor pode despertar o interesse em química nos alunos. Teu site é esplêndido e toda vez que veio aqui, leio os posts, me sinto maravilhado(a) em como a química faz parte de nós e é um bom motivador a estudar e focar bastante no IFRJ.
    Obrigado mesmo,o ensino seria outro se metade dos professores tivessem esse teu espírito! Você é admirável!!

    • Antonio Florencio

      Oi … fico muito feliz e agraciado com seu comentário. Ao ver comentários como esses vejo como o blog realmente pode ser útil, e me incentiva muito a continuar com o projeto. Muito obrigado mesmo!

  • Guest

    Antonio, queria dizer, com toda minha sinceridade, que você é um professor maravilhoso, e por realizar este trabalho, mostra como um professor pode despertar o interesse em química nos alunos. Teu site é esplêndido e toda vez que veio aqui, leio os posts, me sinto maravilhado(a) em como a química faz parte de nós e é um bom motivador a estudar e focar bastante no IFRJ..
    Obrigado mesmo,o ensino seria outro se metade dos professores tivessem esse teu espírito! Você é admirável!!