De onde está vindo esse cheiro? A química do aroma

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Quem não gosta de um bom perfume? Ou quem não gosta do aroma refrescante do eucalipto, do bom cheiro de uma casa limpa? E o cheirinho de comida, que faz o estômago roncar … isso me faz lembrar os velhos episódios do Pica-pau em que ele voa seduzido pelo aroma da comida do Leôncio.

Que gostamos do bom cheiro e repudiamos o mau cheiro todos concordam, mas você sabe como sentimos o cheiro? Por que existe tanta variedade de aromas? Por que algumas substâncias possuem mau cheiro? Bom … esse post vai falar um pouco sobre isso.

 Primeiramente, embora seja um tanto óbvio, temos de ter em mente que o que chamamos de cheiro, ou aroma, é a percepção que temos quando o nosso olfato é sensibilizado. Para ativar esse sentido, as substâncias responsáveis pelo cheiro têm de passar pelo nosso nariz, o órgão responsável pelo olfato. Acontece que dentro do nariz, e apenas nele, temos células especiais, as chamadas células olfativas. No caso do ser humano, temos mais de 100 milhões de células olfativas. Esse é um número bem elevado de células, porém, corresponde a menos da metade das células de um cachorro! E muito menos que Jean-Baptiste Grenouille, personagem principal do Livro/Filme “Perfume a História de um Assassino”, que conseguia identificar tudo ao seu redor apenas através do aroma, rsrsrsrrsrsrs

 Para sentirmos o cheiro é necessário que as moléculas odoríferas interajam com as células olfativas da cavidade nasal. Para que isso aconteça, é óbvio que as moléculas têm de sair de uma fonte (perfume, comida, desinfetante etc), atravessar o ar e chegar ao nosso nariz. Para que isso seja possível, as substâncias odoríferas têm de apresentar certa volatilidade. É por isso que a maioria dessas moléculas apresenta baixa massa molecular, porque, via de regra, moléculas mais “leves” interagem mais fracamente umas com as outras, volatilizando-se mais facilmente.

 Abaixo segue alguns exemplos de moléculas responsáveis por agradáveis perfumes, e por desagradáveis odores.

Algumas substâncias odoríferas e seus respectivos aromas
Algumas substâncias odoríferas e seus respectivos aromas

Uma vez que as moléculas voláteis entram na cavidade nasal, elas se solubilizam no muco nasal, e ligam-se, através de interações intermoleculares, às proteínas receptoras presentes na membrana celular das células olfativas. E é ai que a mágica acontece. As proteínas receptoras mudam sua estrutura espacial ao se ligar com as moléculas odoríferas, e neste momento é ativada uma proteína interna chamada de proteína G. Uma vez ativada, a proteína G ativa canais de sinalização iônicos, que mandam impulsos elétricos diretamente ao nosso cérebro sensibilizando locais específicos do cérebro (um único aroma pode sensibilizar mais de um receptor cerebral !!!!), permitindo a identificação do aroma.

Com isso concluímos que é o cérebro (como sempre …) o responsável por identificarmos o cheiro. E isso provoca uma consequência bem interessante – a memória do cheiro. Já perceberam que algumas vezes, quando sentimos um perfume numa pessoa na rua, automaticamente nosso cérebro nos faz lembrar que outra pessoa, talvez uma bem achegada, usava esse perfume, e a partir dai vem uma série de lembranças nostálgicas (boas ou ruins)? Isso ocorre porque não é o nariz o responsável pela sensação do cheiro (embora seja fundamental), mas sim o cérebro, e ele registra e guarda todas as informações. Além disto, quando sentimos um cheiro ruim, nosso cérebro o identifica e logo nos informa para sairmos da região que estamos, seja por ser um odor tóxico, ou simplesmente trazer uma má lembrança junto com ele.

Mas porque as substâncias têm aromas diferentes? Bom … o cheiro não é resultado de como as moléculas odoríferas se ligaram às proteínas receptoras, mudando sua conformação espacial? Então … substâncias diferentes vão ativar as proteínas receptoras de maneira diferente … levando a sinais elétricos diferentes … que sensibilizam o cérebro de maneira diferente … resultando, finalmente, em aromas diferentes.

Uma observação interessante é que a interação molécula odorífera – proteína receptora depende muito da estrutura das moléculas odoríferas. Uma consequência disto é que se as moléculas tiverem estruturas similares podem interagir de forma similar com a proteína receptora, e com isso provocar a sensação de aromas similares. Por exemplo, o ácido clorídrico e o ácido sulfídrico, são moléculas pequenas, que interagem de forma semelhante com o sistema olfativo, e por isso se enquadram no grupo básico de aroma chamado putrefato (ou podre, e neste caso não seria aroma, e sim odor!). Na verdade embora o ser humano possa detectar um enorme número de aromas distintos, existe uma classificação básica de aromas (ou odores), proposta por John Amoore, em 1960. Nesta classificação teríamos sete odores básicos:  cânfora, almíscar, floral, menta, éter, penetrante e putrefato. Cada um desses seriam sentidos ao acionar uma determinada região cerebral. Vale ressaltar que a maioria das substâncias aciona mais de um receptor cerebral para a identificação do cheiro, e por isso o que percebemos é uma combinação desses odores básicos.

Então, para concluir esse post, toda vez que você sentir um determinado aroma, lembre-se que esse não é um processo tão simples como se imagina, e que realmente é um privilégio podermos perceber tantas variedades de aromas agradáveis, que por vezes nos trazem agradáveis lembranças … ou não … rsrsrrsrrs

Fonte:

Química Nova na Escola, 2011, 31, 3.

 

  • Miriam Mascarenhas

    Os cheiros são sólidos ?

  • Iris

    Muito legal!! Fiquei curiosa pra saber, os perfumes são feitos com essas mesmas moléculas? Elas podem ser feitas em laboratório ??

    • Antonio Florencio

      Oi Iris, primeiramente muito obrigado. Bom … as moléculas mostradas na tabela são as responsáveis pelos aromas naturais especificados. Essas moléculas podem ser extraidas de plantas, ou podem ser sintetizadas no laboratório. Ainda existem a possibilidade de sintetizarmos moléculas com estrutura similar à responsável pelo cheiro, e o nosso cérebro reconhecer um aroma bem parecido com o da molécula original. A produção de perfumes é um ramo bem bacana, e envolve bastante conhecimento de química. No Núcleo de Pesquisa em Produtos Naturais – NPPN da UFRJ tem um grupo que trabalha com isso, caso um dia essa área te interesse.