De Shakespeare às Bruxas – o poder dos alcaloides

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O grande Willian Shakespeare é um nome que fala por si só. Alguém que nunca leu uma linha de suas famosas obras, como Romeu e Julieta, Rei Lear, Otelo, sabe ao menos quem foi esse grande dramaturgo. Mas o que pouca gente sabe, inclusive seus fãs, é que podemos encontrar “uma química” muito interessante em suas obras. Não sabiam? Vou mostrar alguns exemplos bem interessantes no post de hoje, então … não feche a página e continue lendo. Valerá a pena.

Com certeza, a obra mais famosa de Shakespeare é Romeu e Julieta. E imagino que não estou dando nenhum spoiller ao dizer que os simpático casal tem um triste fim (afinal Romeu e Julieta é uma tragédia). Mas o desenrolar dos acontecimentos finais da obra, embora com o fim trágico, é muito interessante. Tentando unir o casal, o bom Frei Lourenço dá a Julieta um elixir “mágico”, que ao beber iria levar Julieta a um estado de “coma”, idêntico a morte. Notem as palavras do padre ao dar detalhes do poder do elixir a Julieta:

Através de todas as tuas veias correrá/

Um humor frio e letárgico, pois nenhuma pulsação restará/(…)

Nessa semelhança emprestada de morte constrita/

Permanecerás por quarenta e duas horas/

E então despertarás como de um sonho bom.

O elixir, de fato, fez o efeito prometido, e todos acharam que bela Julieta realmente havia morrido, inclusive o desavisado (literalmente) Romeu. Após isso uma série de mal entendidos leva a uma sequência de desgraças, que permitem a classificação da peça como uma tragédia.

Outra citação, onde Shakespeare mostra seus conhecimentos a respeito de poções mágicas, é em Hamlet. O jovem príncipe, ao conversar com o fantasma de seu pai, este lhe confessa que foi, na verdade, assassinado por seu irmão, o então Rei Cláudio. Como? Leia na descrição do próprio “fantasma”:

Teu tio roubou,/

Com suco de execrável hebona num frasquinho,/

E nos meus ouvidos derramou/

O destilado venenoso.

O líquido venenoso hebona provavelmente se refere a planta meimendro. O meimendro era muito conhecido na idade média, e possui atividades soporíferas, anestésicas, e em grande quantidade pode funcionar como veneno. O elixir ingerido por Julieta, possivelmente era um extrato de um outra planta – a beladona. A beladona, assim como o meimendro, também possuem características um tanto incomuns. Em pequenas quantidades, o extrato de beladona era usado pelas mulheres para dilatar as pupilas, e assim tornarem-se “belas donas” (a ditadura da beleza sempre foi estranha …).

Do ponto de vista botânico, o meimendro, e a beladona, assim como outra planta bem polêmica, a mandrágora (aquela que diz que a raiz se parece com um ser humano), fazem parte do mesmo grupo de vegetais – as beladonas.

Mas o que isso tem a ver com a química? Simples … quais são a moléculas por trás dos poderosos efeitos das beladonas? São, principalmente, os poderosos alcaloides hioscimina e hioscina. Os nomes são bem semelhantes, não? Mas a semelhança não fica apenas no nome não, notem a estrutura das duas moléculas:

hioscina

Perceberam como elas são bem parecida? A única diferença é a presença de um anel epóxido na hioscina (caso queira saber um pouco mais sobre anéis epóxidos podem ler este artigo).

Como eu disse, a hioscimina e a hioscina, são alcaloides, assim como a morfina. No artigo em que eu falo um sobre a morfina, eu também defino o que são os alcaloides. De uma maneira rápida, os alcaloides são substâncias “tipo álcalis”. Devido a presença de um átomo de hidrogênio, essas moléculas apresentam características de uma base de Lewis, e por isso apresentam propriedade de um alcalinas (básicas).

Da mesma maneira que a morfina, a hioscimina e a hioscina agem diretamente no sistema nervoso, e por isso são capazes de provocar delírios. Um derivado da hioscimina, a atropina, ainda é utilizada até hoje para dilatar as pupilas em exames oftalmológicos. Já fizeram esse exame? Ruim, não é? Mas na idade média as mulheres usavam o extrato da beladona, que provoca o mesmo efeito, apenas para ficarem mais belas …

A hioscina, que também é chamada de escopolamina, é um dos componentes do soro da verdade. Soro da verdade? Isso existe mesmo? Não sei, provavelmente não. Mas quando um “combinado” de morfina e hioscina é administrado nas pessoas, essas caem em um estado de torpor, e começam a balbuciar algumas coisas, supostamente, a verdade. Ao menos, alguns dizem que funciona. Eu particularmente acho que a pessoa, coitada, está apenas delirando com esse ataque direto ao seu sistema nervoso.

Shakespeare podia não fazer a mínima ideia das moléculas responsáveis pelos efeitos dos elixires citados em suas obras (na verdade Shakespeare nem devia fazer ideia do que era uma molécula!). Mas essas moléculas fizeram muitas “peripécias” na idade média/moderna.

Algumas mulheres, muitas pobres e marginalizadas pelas sociedade da época, tinham um certo conhecimento a respeito de algumas ervas, dentre elas o meimendro, a mandrágora, a beladona, e inúmeras outras. Essas mulheres, conhecidas e acusadas como bruxas, faziam uma espécie de unguento de plantas como as beladonas. Quando as folhas e/ou raízes dessas plantas eram prensadas em óleo, esse agia como solvente, extraindo os poderosos alcaloides  desse vegetais. Esse unguento, por sua vez, podia ser espalhado pelo corpo todo, inclusive nas partes mais íntimas. Quando a pele absorvia essas moléculas, e as mesmas entravam na corrente sanguínea, indo direto para o cérebro, provocava um estado eufórico e alucinante nessas mulheres. Na verdade, elas estavam se drogando, numa época em que esse termo sequer era imaginado. O poder dos alcaloides era tão forte, e a absorção pela pele tão eficiente, que algumas dessas mulheres, quando interrogadas, afirmavam veementemente que voavam nas noites de lua cheia e se encontravam com outras bruxas para um sabá (ritual pagão de orgia).

Não sei se fui claro, mas ao que parece, muitas bruxa confessavam em seus interrogatórios que podiam voar, mas provavelmente estavam relatando o efeito que os alcaloides provocavam nelas. Se somarmos o poder dessas moléculas, a ignorância, medo e superstições da época, essa teoria não é tão absurda.

Mas essa família de alcaloides não fica restrita apenas as ilustres hioscimina e hioscina. Uma planta, nativa da América do Sul, mas não pertencente a família das beladonas, possui um alcaloide muito parecido com as “moléculas das bruxas”. Notem a estrutura abaixo, e por favor, comparem com as estruturas acima.

cocaina

Essa molécula é encontrada em uma árvore do gênero Erythroxylon. As folhas dessa árvore eram usadas pelos nativos como estimulante. Eles faziam uma espécie de pasta a colocavam na boca, entre as gengivas, onde o alcaloide era lentamente absorvido pelo corpo, com o efeito capaz de mascarar o cansaço, a fome e até mesmo a sede.

Esse poderoso e benéfico alcaloide sul-americano é o que chamamos hoje de cocaína. Sim, essa molécula usada de maneira inofensiva em terras sul-americana (e realmente, dessa maneira ela não vicia), e prescrita exaustivamente pelo grande Freud em seus tratamento psicanalíticos, é a mesma molécula que hoje mata milhares de pessoas, e destrói família, seja pelos seus efeitos diretos, seja por toda violência que seu comércio carrega.

Conseguiram ver nesse post quanta “mágica” é carregada por algumas moléculas. Devido a ignorância das épocas, seja na idade média/moderna, seja hoje, o uso indiscriminado, ou irresponsável de algumas moléculas é capaz produzir muito sangue. As pobres mulheres medievais, que usavam essas moléculas como “fuga da realidade”, pagaram um preço muito alto por isso – tiveram cabeças cortadas, pulmões estourados com água, ou seu corpo inteiro queimado. Hoje, muitas pessoas usam a cocaína, parente muito próximo da hioscimina e da hioscina,  procurando a mesma “fuga de realidade”, mas também pagam um elevado preço por isso (e não estou me referindo a simples compra da substância não!).

Shakespeare e muito autores antigos citam efeitos de poderosos elixires e venenos. Eles só conheciam o efeito, e não tinham nenhuma ideia do que conferia tanto poder a esses “preparados”. Hoje nós podemos nos considerar privilegiados. Graças ao nosso conhecimento em química, que até certo ponto consideramos exato, somos capazes de ler uma obra como a Shakespeare e conhecer a química oculta entre as linhas dos roteiros de sua peças teatrais. Sim … eu sei que é muita “nerdisse”, e que isso até tira um pouco do charme e da beleza dessas obras primas … mas fazer o que … o autor desse texto é um convicto nerd …

 Bom … espero que tenham gostado do post. Mas uma vez ele é baseado no excelente e fantástico Os Botões de Napoleão – 17 Moléculas que Mudaram o Mundo. Recomendo fortemente que não deixem de adquirir esse livro (podem fazê-lo pela Amazon, clicando aqui). É isso pessoal, comentem, cliquem, compartilhem, se inscrevam no canal, na newsletter, no g+, no twitter, em tudo, rsrsrrsrsr. Ok?

Até a próxima do Ensinando & Aprendendo.